segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Movimento Híbrido

Este final de semana passei analisando a parte que conheço (que é quase nada) sobre o comportamento humano. Se me é permitido e com toda humildade, a primeira das análises foi com alguns professores, percebi que eles parecem estar num patamar diferenciado de um grande artista. È um artista tambèm. Mas um artista que respeita todas as regras. O artista se difere um pouco e arrisca erros que ele sabe que não são erros, são apenas expressões. (O modelo clássico é Van Gogh que não suportou o peso de tantas alucinações inspirativas.) Não que alguém seja superior a ninguém. Absolutamente. Definitivamente somos todos iguais, a ordem mundial não permite mais o transgressor, ele foi banido para não se sabe para onde.

Assistindo Altas Horas, apresentado por Serginho Groisman (excelente profissional e educador) fiquei um pouco triste ao ver a minha geração tão mal tratada e abandonada. Enquanto a Srta K* falova sobre sexo. Uma chuva torrencial de perguntas supérfluas eram respondidas (também de forma supérflua). Numa destas dúvidas, um telespectador teve a seguinte pergunta (não lembro exatamente as palavras):
- Em uma relação sexual, usar doce de leite é sensual ou cafona?
Tem que descontar: o programa é voltado para o público juvenil. Aquele menino que não pode sair de casa porque é muito novo e também não quer dormir cedo. Tirando este fato, o que sobra é a ausência de conteúdo. É uma pena. No melhor horário para pegarmos nossos formadores de opinião e “entuchá-los” de informações boas. As televisões optam por isto. Em outros canais, tiram dinheiro quase como um assalto. Tem um programa que sorteia dinheiro! O programa é de sorteio de dinheiro! Aí, o mesmo paguá que fez a pergunta do doce de leite, vai gastar todo o cartão de créditos da mãe, na esperança de ganhar alguma coisa.
Quando descrevo por “minha geração” falo sobre a paralisação parcial da criatividade brasileira que tanto encantou o mundo. Boa parte parou quando os anos 70 acabaram. Desde o surgimento de Washington Olivetto, nossas criações publicitárias nunca mais foram as mesmas. Não surgiu um criador (neste ramo) brasileiro para superá-lo. Tivemos um movimento punk fraquíssimo e um pos oitenta pior ainda. Não critico Legião Urbana, nem posso. Só acho que o Renato Russo morreu tentando fazer algo bom. Algumas poesias realmente foram, mas a maior parte atingia o mesmo público de Serginho Groisman. Em todo o âmbito cultural verificamos esta pobreza intelectual (hoje, o intelectual é considerado chato. Se Morrison fosse vivo ele seria o mais chato do mundo).
De um Chico nasceu e morreu outro, este último mostrou ao mundo que é possível tirar arte da lama. Falo de Chico Science. Como o Brasil sente falta de pessoas como ele. Sente falta também de pessoas como João Estrela, um transgressor mocinho. Mas compare o número de citações, para um espaço de tempo tão grande entre trinta anos. Nasci em 1981, não sou da geração 1984.**

Podemos contar nos dedos os últimos fenômenos. O levante eletrônico, por exemplo.
Enquanto jovens escutam sons digitalizados, não têm a menor noção de quando surgiu. Acham-se modernos, mas escutam a banda Kraftwerk. Ouvem a remixagem que um produtor fez para Paris Hilton, sem saber que aqueles sons começaram a ser experimentados há pelo menos 159 anos, pelo bibliotecário francês Leon Scott. Depois que surgiu o DJ, parece que todo brasileiro virou músico. Esquecem que há música na música eletrônica. Chemichal Brothers, junto com mais uma dúzia, no máximo, consegue sair deste pensamento. Infelizmente a maioria são citações de fora. Não importa da onde seja, ou de onde venha, o público espera ansioso alguém que não surgiu mais. Verificamos que isto não é exclusividade brasileira. O objetivo não é segregar, mas agregar.

Escutando rádios européias ou norte americanas, verificamos o mesmo tipo de problema. Esta colônia global esta destruindo todas as raízes de cada nacionalidade.

Estamos passando pelo total desprendimento do intelecto. E nos prendèndo neste mundo falso que vemos. Profetas bíblicos alertaram sobre isto (mais uma citação de fora). Fernanda Porto canta Eclesiastes e é bem reconhecida fora das nossas linhas territoriais. Fernando Meirelles capta uma empatia incrível com seus personagens. Graças a superação, ainda temos profissionais que conseguem transcender, mostrando que vale a pena acreditar.
O ser humano precisa ser escutado atentamente. O que dizemos um para o outro? O duro é verificar a ausência de ouvidos ou de bocas que realmente acreditem umas nas outras.
Imaginem a cena: “estou em um ônibus e vejo uma criança linda. No mesmo momento que observo, brinco com afeto e admiração por tanta inocência. De súbito a mãe dela, puxa-a pelo braço, protegendo a cria de um perigo que debaixo dos seus olhos nunca acontecerá (o “acontecerá” esta no futuro, pois quem sabe se cuidar nunca encontrará problemas). A criança, sem entender é impedida de olhar para o banco de trás.” Quem me contou esta história (com H) foi meu avô. Quando ele descreveu este acontecimento, fiquei sem entender como existe tanta estupidez no ser humano. Proteger do perigo é uma coisa, tornar as nossas crianças as mais estressadas do mundo (segundo pesquisada realizada pelo canal de televisão infantil Nickelodeon) é outra.
Aprofundando-se um pouco nestas atitudes: Escutar um mendigo pedir dinheiro é normal, ou habitual? Fico com a segunda alternativa. Nos habituamos em ouvir diversos pedidos. Fingimos não ligar. Não escutar. Não ver.
(Outra história com H.) “Ouvir um mendigo falar que quer fazer um “bem bolado” para tomar cachaça. Porque somente com ela (a cachaça) poderá sarar suas dores momentâneas; dizer também que não é nada fácil viver nas ruas e dormir com o cobertor do horror, que esquenta quase a mesma coisa que um papelão mijado.” Uma história triste, porém, acredito que cada pessoa tem uma opção de vida. Este ser está perdido dentro de um mundo perturbado. Mas nem mesmo o perturbado merece sofrer dores carnais. Temos o dever de ajudar. Seja com uma palavra ou um ouvido. Não simplesmente dar uma moeda para que ele vá logo embora.
Enquanto pensava neste outro ocorrido do final de semana, eu e mais uma legião de olhos assistíamos a MTV. O programa em que a Paris Hilton já citada, escolhe quem será a sua melhor amiga. Mostrou um japinha histérico, chorando feito uma menina. Ele havia sido eliminado.
Os próprios canais de televisão que tanto apóiam a consciência social apóiam programas sem teor de aprendizado. Os meios de comunicação são úteis, porém não participam ativamente de nada.
Diante de uma juventude cada vez mais alienada estão: músicos omissos, escritores oportunistas, artistas escolhidos por castas, dramaturgos sem noção alguma do que é a vida, professores limitados, e tantas outras coisas mais. Tornam-se raros os que se diferenciam. Enquanto isto, a alma humana continua sendo apagada. Todo dia tem alguém que apaga algo da nossa lembrança, fazendo com que o sentimento de revolta seja substituído pela palavra “é tudo normal”. Deste ponto em diante, o artista está sumindo.***
As fantasias vão se esgotando neste universo multidisciplinar. Lutamos tanto pela liberdade. Hoje lutamos para ter milhões de disciplinas no currículo. Somos a geração escrava da multifunção. É dentro deste cenário que precisamos convocar à lucidez, os que estão dormindo dentro do comportamento conformista.

*tentei contato com a rede globo pedindo o nome e formação desta mulher. Ninguém respondeu, então defini chamá-la de Srta K.
**livro de Geoge Orwell
***seja ele: professor ou discípulo

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The Lifer - Camisetas.

Não sei se ele tem catálogo pra enviar por e-mail. Dá uma olhada no blog: http://blogthelifer.blogspot.com Deixa um comentário na página dele se quiser comprar.


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Foto: Emerson R. Zamprogno

Um lugar que tah bonito de visitar nesta época do ano é o "bosque das cerejeiras". Fica no Parque do Carmo - Itaquera - SP. Do metrô tem ônibus facinho que te deixa na porta. Se vai de carro: A principal avenida de referência é a Aricanduva. É só seguir as placas e babau.




6 comentários:

Nydia Bonetti disse...

brilhante, marcelo. esta apatia, este conformismo como você bem disse, do mundo "pós-moderno", também me inquieta. mas creio que o artista, o pensador, o poeta, haverão de resistir em qualquer tempo. só não sei não sei por quanto tempo... tempos difíceis estes em que vivemos.
abraço.

marcelo cajui disse...

Obrigado pelo comentário Nydia.
realmente, tempos dificeis. o esquema talvez seja tentar melhorá-los. mesmo com erros. mas pelo menos tentar.
abraço.

Nanda disse...

Olá Marcelo,
Sou lá da comunidade Novos Escritores do Brasil... a do texto sobre o José, lembra? :P
Vi seu blog no seu perfil e resolvi comentar aqui.
Também tenho o costume de observar o comportamento das pessoas - principalmente dos jovens. Talvez seja porque eu me acho diferente de todos eles, não sei.
Enfim, tenho uma opinião sobre tudo isso que você disse.
Sobre o lance da TV... Não podemos culpar quem está por trás dos programas. Se tem um culpado de tanta informação supérfula rodando por um dos maiores meios de comunicação esse culpado é o jovem. Os programas de televisão só existem para uma coisa: vender comercial. Os programas são feitos de acordo com o que o público-alvo deseja ver... Eles querem uma entrevista mongol sobre sexo? Então eles vão ter, pois isso vai fazer com que eles assistam o programa e com mais audiencia a rede vai conseguir vender o seu horário comercial e lucrar com tudo isso.
Toda essa paralisação da cultura não acontece só aqui no Brasil. Cadê os fenômenos internacionais? Susan Boyle? Se ser feia é motivo pra ser ídolo de alguém...
Quem faz o mundo somos nós, jovens. E é uma pena que a maior parte de "nós" não tá nem ai pra isso.
"Nós" não tá nem ai pro mendigo da rua, "nós" não tá nem ai pra cultura nacional (seja lá qual for a nação de "nós")... e o conformismo vai continuar ai, porque "nós" só quer saber de diverção, balada e pegação. :P

Nanda disse...

Caraca, diverÇão foi foda. ahhaha
Perdão, corrigindo: diverSão.

marcelo cajui disse...

é nanda. concordo em partes sobre os meios de comunicação não terem culpa e tal. mas vou deixar este assunto para a próxima postagem.
vou falar no que eu acredito. embora pareça pessimista em alguns comentários, eu acredito que esta nossa geração tem tudo para fazer um movimento grandioso. um movimento que pode retomar parte da nossa característica como brasileiro e sulamericano que foi perdida durante o tempo.

valeu mesmo, pelo super comentário.

Nanda disse...

Nossa geração tem QUASE tudo pra fazer um movimento grandioso. Sabe pq? Pq pra fazer um movimento grandioso só precisamos de duas coisas: pessoas e força de vontade. Pena que a gente só tem a primeira (por enquanto). Temos ainda grandes aliados que poderiam ajudar nisso e um deles é a internet
Não sei onde você mora e nem sei se você ficou sabendo disso, mas quando o Eduardo Paes foi eleito aqui no Rio de Janeiro os jovens ficaram p. da vida porque estava na cara que ele estava sendo corrupto... Criaram uma comunidade no orkut chamada "Movimento Pro-democracia" e em menos de uma semana levaram 3.000 pessoas pro centro do Rio. Eu tava lá e vi, foi lindo ver 3.000 jovens na rua, pintados, cantando o hino nacional e lutando a favor de algo que eles acham certo (tá que a maioria só estava lá porque queria que o Gabeira fosse eleito... provavelmente por causa dos papos de maconha dele haha).
Enfim, o que eu quis mostrar é que tem como fazer um movimento grandioso (seja ele político, cultural...)? Tem.
Só falta a força de vontade... Pq sabe como é, né? Fazer algo grandioso dá um trabaaalho...

Aguardo seu próximo post (: