terça-feira, 1 de setembro de 2009

tratando-se do tempo

Tratando-se do tempo.

Os brasileiros, principalmente os paulistanos (com quem convivo), acostumaram-se com a idéia do tempo como sendo o principal meio de ordenação social. Padrão estipulado por europeus e norte americanos (o estranho é que a definição de tempo com horas foi feita primeiramente no Egito antigo). Não podemos tirar a importância. Temos o dever de ressaltar que o tempo é fundamental na sociedade atual. A palavra ‘fundamental’ carrega consigo os padrões de fundamentos, ou seja, possuí elementos que fizeram composição para o cidadão ocidental (frequentemente invadido por todos os povos que antes saiam do centro e parece querer retomar um império que já fora deles nos primórdios. a resposta dos ocidentais vem com a mesma potência) desde suas origens.
Os efeitos da globalização esta mais visível para os que ainda não tinham percepções sobre suas conseqüências. Porém, somente agora o Brasil esta se alinhando aos padrões globais do consumo (mais pra frente compararemos o consumo com o tempo).
Vamos analisar as rodoviárias, fundidas por logística e tempo: Tietê, Barra Funda, Jabaquara, Prefeito Saladino. Que me lembro são as principais da grande São Paulo. Notamos o rigor “pontualístico” com o horário e organização baseada no relógio. Mesmo dentro de uma cidade que o caos no trânsito é fato corriqueiro.
Partimos para os terminais urbanos: São Mateus, Santo Amaro, Parque Dom Pedro, Capelinha entre outros (aqui o número aumenta e muito). Antigamente os ônibus demoravam horas para encostar-se à plataforma. Possuíam horários, mas dificilmente eram respeitados a fio. Por vários motivos: um deles era a deficiência na frota, outro era o (des) controle da extinta CMTC.
Hoje, por mais que um ônibus atrase, dificilmente passa de cinco minutos. E mesmo que um veículo esteja preso no trânsito, terá outro para repô-lo, imediatamente. Isso não impede a super lotação em horários de pico, mas não é disso que estamos tratando.
Partimos agora (novamente) para o quesito: arte. Antes nossos ídolos eram símbolo de boemia e de boa vida. Homens que se preocupavam com a alma e o coração. Que viviam a cada dia, numa mistura de praia e tranqüilidade. Hoje temos ídolos engravatados estressados, sinônimo de incansáveis trabalhadores. Pessoas que não param nunca. Ligadas a metas, horários e responsabilidades infinitas.
Vemos estes artistas em canais de televisão (internet, etc.. tevê é só um arquétipo). Onde temos uma programação fixa e imutável. Com exceção dos desorganizados SBT e Cia, que se baseiam em conseguir o segundo lugar no Ibope a qualquer custo. Os assinantes de Sky podem notar, os únicos canais abertos que respeitam os horários da tarja da programação é a rede globo e a Cultura. Ainda assim com alguns minutos de atraso, cerca de dez minutos de programa para programa.
Um exemplo para figurar a citação é: “são 18hs. quero ver o que vai passar às 19hs. O SBT anuncia o programa X. A globo anuncia Y. A Record anuncia o Z. O programa X do SBT me interessa. Quando chega 19hs coloco para assistir. Quem disse que o negócio ta passando? Chega 19h30...19h40 e nada. O horário passa e o troço não é exibido. Esta mudança na programação irrita. Silvio Santos segue uma linha “caixeiro viajante” no mercado televisivo. Usa a tática de venda imediata, aquela que o amanhã não importa. O importante é hoje, agora. As pessoas com menor senso crítico não conseguirão discernir e continuam assistindo. Pulando de um programa para outro. Comentamos tanto sobre o império global, esquecemos que, SBT , Record e as periféricas, também fazem uma manipulação diferenciada. – Segurar um assunto específico para reter a audiência, não é fazer o mesmo? –. Este parágrafo é muito chato, se cavarmos mais fundo achamos assuntos fósseis para outros exemplos. Não é a toa que a líder de audiência ocupa um trono que parece inabalável. É o canal aberto mais organizado e supostamente mais responsável com o telespectador.

Voltando ao tempo:
Foi tentando controlá-lo que tornamo-nos “o homem que se olha no espelho”. Vivemos num ambiente descontrolado por leis e controlado no calendário. As regras não param de crescer, todos os dias são votados novos códigos judiciais. O último que causou polêmica foi o de 13.541 (Antifumo). Puta que pariu... se este é o de número 13 mil e lá vai cacetada, e os 13 mil lá vai cacetada anteriores que não conhecemos? Como podemos respeitar leis que não temos a mínima idéia que existem? Daqui uns dias será obrigatório por lei, usar um computadorzinho de bolso onde consultaremos o que pode fazer (quase nada) e o que não pode (quase tudo).
Neste sentido vamos perdendo a vontade de ser alguém. Representamos apenas um número de RG que continua sendo expresso pelo nosso polegar. Marca registrada do ser humano (o polegar reverso).
Ser “alguém” representa algo maior – note como a sílaba tônica se destaca mais do que na palavra: “qualquer”. Ser alguém, não é ser um qualquer, o qualquer fica jogado, buscando justiça onde ela não existe.
É certeza absoluta que seriamos mais felizes seguindo nossos gostos próprios. Mesmo que de certa forma expostos em sonhos encomendados por nossos pais. Porque o desejo verdadeiro vem de si mesmo, não parte de ninguém para ninguém. A indução sim, a indução agride nossa vontade de reagir e nos faz não desejar mais. Que sejamos melhores educadores para os nossos filhos mimados.
Que sonhemos sempre, errando aqui acertando ali e igualando os alicerces de nossas vidas, em bases próprias não induzidas, nem impostas e permeada em raízes. E que se foda o que não acharem legal, contanto que você ache. As fãs de Sandy crêem ser o máximo idolatrar uma bonequinha de porcelana viva, eu admiro isso e juro que pelos menos estas pessoas resolvem assumir algo. Tem tanta gente que gosta e fica negando atrás de conceitos pré-formatados em nossas mentes.

Por estranho que pareça, esta é a época de maior realidade em nossa história. Tudo tem que ser real: o santo tem que aparecer, as figuras mitológicas perde solidez na busca pela razão de tudo. do porque do erro na hora da loucura (sendo que loucura é loucura). do porque de suas invenções virarem contra e tantos outros “porquês”.

Até mesmo a droga de hoje retrocede em miseráveis fragmentos, de como é viver sem regras. No entanto, nada foi além de um êxtase (pílula) tomado. Muitas pessoas se perpetuam naquele vício sintético. Adquirindo uma dúvida que não tinham, talvez uma delas seja: “– Se vivo em maravilhosos mundos internos, pra que vou me preocupar com o mundo externo? –” Neste paradigma seguem aderindo a causa do individualismo. Por conseguinte vemos o soma* de amanhã.
É bem triste imaginar que, para sermos civilizados e co-harmônicos com o mundo, precisamos ficar dopados. Cada um a sua maneira, o jovem se droga mais do que nunca, os antigos tomam mais medicamentos do que nunca, os mortos são mantido vivos afim de pesquisas. Uma das maiores curiosidades que já ouvi é: ‘o ser humano é viciado por natureza’. No fundo eu concordo. O maior vício de todos é se preocupar com tempo: tempo de transar, tempo de amar, tempo de se divertir, tempo de errar, tempo de acertar, tempo de encenar, tempo em se portar e em reportar, tem tempo pra tudo**. De todos os tempos, acabamos perdendo o principal deles: o tempo que não existe. Ou o de viver sendo um animal irracional, assim como todos os outros. (to be continued)

*droga que os cidadãos usam na ficção de Adouls Huxley – Admirável Mundo Novo.
**Mais uma vez se apropriando de Eclesiastes.


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Lugar novo que esta com uma programação legal é o Teatro da Vila. Fica na rua Jericó, 256 - tel. 3258 6345. O grupo Satyros é responsável pela curadoria e programação teatral do espaço. De segunda rola umas bandas boas, o estilo musical varia.

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Dez motivos para nunca fazer isto. O último é o conjunto de todos, pra quem não entender de alemão (eu também não entendo, foi um amigo que falou)


7 comentários:

Júlio Vicentainer disse...

É isso aí, vivemos o tempo do anti-valor, o tempo vazio para ser esquecido, abstrato. Ao mesmo tempo quue essa geração protesta a falta de tempo, é a geração que mais gasta o tempo inutilmente. Passa-se um dia à frente de um computador, jogando ou atualizando o seu perfil nos diversos sites de relacionamento. Gasta-se o tempo assistindo à um programa de televisão que nada tem a acrescentar. Gasta-se o tempo correndo atrás de uma ilusão, de algo inexistente. Gasta-se o tempo cuidando da vida dos outros e esquecendo a própria existência.
Tudo o que precisamos é de um pouco de vivência, é de usar o tempo de forma útil. O tempo existe para ser experimentado, para ser transformado em algo de valor para a humanidade. Use o seu tempo de forma sábia. Ações, pensamentos e sensibilidade. Viva o advento do novo. Viva as novas experiências!

marcelo cajui disse...

anti-fumo. anti-trepadas. anti-imaginárias, etc. e tal. rs.
O esquema é viver sem medo que o tempo pode passar. não adianta segurar, ele vai passar.
grande comentário Júlio!

ow... valew pela referência lá no seu.

tudo correndo bem, sexta tamo lá na DJ Club. hehehe. faz uma cara. aquele lugar não deve ter mudado nada.

abraço.

edison veiga disse...

Obrigado pela visita ao meu www.cronopolitano.blogspot.com
Seu blog também é bem legal. Apareça sempre!

Nydia Bonetti disse...

marcelo

olha que texto bonito sobre o tempo:

http://inscries.blogspot.com/2009/09/ciencia-inexata.html

Abraço!

Ricardo Thadeu disse...

Muito bom, meu amigo.
Tempo é dinheiro e, para as Silvio Santos, tempo é título de captalização.

¡Hasta luego!

marcelo cajui disse...

nydia. fui ler.
quebra totalmente esta tensão que deixei no meu. rs.

o comentário que vc deixou lá, resume bem o que o texto representa.
obrigado.

marcelo cajui disse...

hey hombre.
bom te ver por aqui Thadeu.

Título de capitalização é boa! kkk

abraço